Resenha 130 | Diário de Uma Escrava, por Rô Mierling {Releitura}


Título: Diário de Uma Escrava
Autora: Rô Mierling
Editora: Darkside Books
Gênero: Suspense e Mistério
Lançamento: 2016
Páginas: 240
Skoob: (Ler +)
Classificação: 
Sinopse: Laura é uma menina sequestrada e jogada no fundo de um buraco por alguém que todos imaginavam ser um bom homem. Ela vê sua vida mudar da noite para o dia, e passa a descrever com detalhes sinistros e íntimos cada dia, cada ato, cada dor que o sequestro e o aprisionamento lhe fazem passar. Estevão é homem casado, trabalhador, pai de família, mas que guarda em seu íntimo uma personalidade psicopata. Ele percorre ruas e cidades se apossando da vida de meninas ainda muito jovens, pois dentro de si uma voz afirma que é dele que elas precisam. Mergulhando fundo nessa fantasia, ele destrói vidas, famílias e sonhos, deixando atrás de si um rastro de dor e morte.

Narrado em parte em forma de diário, o livro acompanha mais de quatro anos da vida de Laura em um buraco embaixo da terra, período em que algo dentro dela também se modifica de uma forma inimaginável em busca da única maneira para sobreviver. Publicado originalmente na plataforma digital Wattpad, onde já teve mais de um milhão e meio de leituras, DIÁRIO DE UMA ESCRAVA apresenta um retrato duro, cruel, abominável, mas infelizmente corriqueiro no Brasil e em todo o mundo.

Através de Laura, raptada ainda adolescente por um homem que ela chama de “Ogro”, a autora denuncia os diversos tipos de violência que muitas mulheres são obrigadas a suportar em silêncio e nas sombras da sociedade. O “Ogro”, um homem aparentemente comum, honesto e “acima de qualquer suspeita”, mantém Laura presa em uma casa afastada, onde abusa dela sexual e mentalmente, alegando ser ela o seu verdadeiro amor. Laura, compreensivelmente, só pensa em escapar dali. Mas agora ele parece estar mudando. Será que é o melhor momento mesmo para fugir?... Bem, isso você vai ter que ler para descobrir.



Olá visitante!

Retornando aos poucos o meu ritmo de leitura da época da faculdade, resolvi reler este livro que me tocou tanto na primeira vez que o li. Queria ver se o sentimento persistia, após vários anos e após eu ter mudado um pouquinho alguns conceitos particulares e pessoais. A resposta foi sim.

Iniciando a resenha, trata-se da história de Laura, uma menina sequestrada enquanto ainda criança e submetida a todo tipo de tortura, incluindo estupro e cárcere privado, por um homem sem escrúpulos e doente.

Na narrativa contendo os pensamentos dela iniciais, a garota se culpa muito pelo que vem lhe ocorrendo, o que imagino ser comum em vítimas. Ela encontra-se no estágio de aceitação, sabe qual é a rotina do ogro e faz de tudo para que aquilo se torne menos doloroso. 


As coisas começam a mudar quando o Ogro (que é como ela se refere ao seu captor) começa a ter ideias sobre outras meninas, uma vez que a Laura, segundo ele, estaria ficando velha. Porém ele nutre um sentimento doentio de afeto por ela, tratando-a como sua esposa, admirando-a por ser mais forte que suas outras vítimas e ainda permanecer viva. 

“A menina levantou o fraco e ficou observando o inseto se debater até que, cansado e sem ar, cedeu e caiu no fundo do pote. (...) Em um papel, escreveu os seus dados identificadores: cor, tamanho, dia e hora da captura. Tudo pronto. (...) Voltou a se aproximar, fechou o vidro e sorriu. A borboleta agora era sua, eternamente sua.”

O Ogro, por sua vez, é um homem comum, casado (pasmem) e frequentador da igreja. Sua mulher percebe seu jeito estranho e suas vontades em ir para a casa afastada que possuem, mas por ser um hábito de sempre, a mesma prefere não ligar e apenas aceitar as peculiaridades de seu marido. Ela nunca desconfiou do que ele esconde no porão.

A trama se torna dolorosa de acompanhar quando vemos a tentativa de fuga de Laura se frustrar, pois fazem anos que ela desapareceu e nem seus pais acreditam na sua sobrevivência. Logo, ao procurar ajuda, ela não é levada a sério e, por não saber o que fazer, sua mente lhe prega uma peça e a faz agir contrário ao seu senso de sobrevivência: ela volta ao seu captor, torcendo para que ele não sinta sua falta e resolva lhe castigar.


A partir dai começamos a entender o instinto de sobrevivência de Laura em sua forma mais pura, a forma como sua mente lhe trai após anos de tortura e a faz acreditar que aquilo é melhor do que sua liberdade. Laura age de forma fria e calculada apenas para que fuja da dor e torturas, inclusive aceitando se submeter a outros tipos de crime cometidos pelo Ogro. 

Em sua visão distorcida de vida, criada pelo Ogro, se manter obediente e fazer o que ele manda, faz com que a tortura seja direcionada a outra vítima, deixando-se livre apenas para comer, assistir e respirar. Ela não vive, apenas sobrevive, mas de uma forma menos dolorosa.

Sei que, na verdade, só você me entende. Ninguém quer saber do que eu gosto ou do que eu quero. Mas eu sei o que eu quero e sei também o que vocês, meninas lindas e puras, querem e do que gostam. Posso fazer de vocês mulheres fortes. (...) Olha só você! A única que me aguentou até hoje. (...) Até desse seu olhar de ódio, que você tenta disfarçar, eu gosto. Inclusive, até me excita.”

É doentio ler seus sentimentos, mas a medida que a autora nos insere em seus atos e crenças depois de tantos anos sendo privada de sua liberdade e conceitos básicos de vida, começamos a entender o que a leva a sentir aquilo e agir daquela forma.

A autora não nos traz um conto de fadas, pelo contrário, ela traz a realidade que acontece no mundo, inclusive retratando a história real de várias outras vítimas que tiveram o mesmo destino, após anos de cárcere privado, estupro e torturas.


Uma parte que me chocou muito, inclusive, foi quando Laura pede ajuda e pede socorro, mas as pessoas simplesmente ignoram, achando estranho, mas não se intrometendo. Isso me causou uma dor inacreditável, não pela cena em si, mas por ver que isso é real, acontece com tantas outras vítimas e as pessoas simplesmente não enxergam. Me fez pensar por dias se algum dia eu já me deparei com alguém precisando de ajuda e simplesmente não notei, absorta em meus problemas corriqueiros e diários. Já pensou nisso?

“Eu fico calada, sentindo o calor do sol, a brisa fresca e a sensação de renascer volta a tomar conta do meu corpo. Não alegra meu espírito, mas me traz vida.”

Enfim, não posso deixar de tecer elogios para a escrita da autora e sobre a diagramação do livro, que a Editora trabalhou muito bem. As páginas amareladas nos proporcionam uma experiência de leitura confortável e a beleza da capa do livro e seus detalhes dá um toque enriquecedor. 


Para quem gosta do gênero e não tem medo de se chocar com algumas realidades cruéis, esta é uma ótima indicação de livro.

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