Resenha 75 | O Capricórnio se Aproxima - Flavio Cafiero

Título: O Capricórnio se Aproxima
Autor: Flavio Cafiero
Editora: E-Galáxia
Gênero: Literatura
Páginas: 60
Lançamento: 2014
Classificação: 
[E-book cedido pela Editora em parceria]
Sinopse: "“Vender enciclopédias”, “trabalhar em banco”, “comer pudim de pão”, “fazer aula de violão” e, finalmente, “ser de capricórnio”. Códigos familiares para assuntos proibidos para as crianças. É percorrendo esse mapa congestionado da linguagem que o leitor vai compreendendo lentamente o enredo cheio de humor e melancolia de “O capricórnio se aproxima”, do carioca Flavio Cafiero. A personagem principal é João, um taxista que tenta se entender com as novas tecnologias exigidas pela profissão e com a necessidade de aprender inglês por conta da Copa do Mundo no Brasil. Porém, mais difícil do que operar um sistema de GPS ou arriscar um Go on, são as relações familiares, que podem parecer banais apenas para quem as vê de fora. Mas aos poucos vamos nos reconhecendo no cotidiano da família de João através de referências escolhidas com muita agudeza por Cafiero: programas de televisão, jogos de futebol, xingamentos, nomes próprios e comidas típicas. Algum detalhe fisga o leitor. Surge então um outro mapa: o da cidade do Rio de Janeiro. E assim como o da linguagem, aqui há regras, sentidos obrigatórios, congestionamentos e riscos de acidentes. Os mapas – da linguagem e da metrópole – se sobrepõem criando camadas de significado. Quando criança, João aprendeu que há palavras que não se pronunciam. Assim como há caminhos que se deve evitar. Mas sonhos, desconfianças, boatos e toda a confusão gerada pela trama densa da linguagem, levam o protagonista a um desfecho dramático. E em alguma medida, patético. 

 Opinião: Este é um tipo de livro do qual não estou acostumada a lidar. Ele nos faz ir mais profundo para entender a verdadeira mensagem passada. Nos faz prestar atenção em detalhes e palavras para entender o que realmente está se passando. É muito interessante!

Temos como personagem principal João, um homem comum com rotinas comuns e uma vida comum. Acho que isso é o mais interessante nesta leitura, somos obrigados a lidar com coisas banais, que por vezes nos passam despercebidos. 

Começamos com João ainda criança, tentando desvendar as palavras ditas pelos adultos. É engraçado ver como ele se esforça para entender o que é falado por seus pais, como quer parecer inteligente ao descobrir que o 'moço trabalha no banco'.


"E então vai chegar o momento de revelar a descoberta, 'ei pai, o senhor não sabe o que eu sei, o moço não vende ecicopede, o moço trabalha num banco', e aquele orgulhinho em descobrir o que o pai nem sabia. E o pai vai rir, e o João sem entender a razão, mas deve ter alguma coisa a ver com o banco. [...] Imagina só ficar o dia todo sentando num banco, judiação, vigiando o dinheiro dos outros."

Ele tenta entender o que acontece com a vida dos adultos, se confundindo com palavrões do tipo 'porra' e tentando entender porque seu tio Oswaldo, que trabalhava no banco, tinha ido para o 'xilindró', era porque ele tinha vários empregos? Vai ver não podia ter três empregos no Brasil, ele pensava. A inocência da criança, adentrando no mundo dos adultos, é simplesmente hilária.

Passada a fase, vemos o crescimento do personagem. Uma de suas decisões foi ser taxista, depois de abandonar a faculdade de veterinária. Ele agora luta com a tecnologia, quando foi que o mundo mudou?

"João não consegue se livrar de Copacabana, mesmo com esses aplicativos de chamar táxi pelo celular que hoje emendam uma corrida da outra."

Conhecemos também um pouco de sua rotina, suas críticas sobre as pessoas, como ele lida com seus dias e seus pensamentos rotineiros.

"João encara o povo indo pro serviço, uma espécie de regalia, já que ninguém sai de casa ao mesmo tempo, mas todo mundo quer voltar na mesma hora."

É incrível como essas pequenas coisas, essas observações sobre as próprias pessoas, se ditas de outro ponto de vista parecem tão diferentes. Nunca prestamos atenção nisso, mas está lá, em nosso dia.

"Não precisa ser uma Zora Yonara pra entender. É o capricórnio, João. O capricórnio vem rondando, é genética, você sempre soube, e sim, sim, é sua vez: o bicho também vem em sua direção."

É muito engraçado a forma como ele usa palavras e diz coisas, por vezes maliciosas, usando expressões. Também entendemos claramente o que a expressão 'o capricórnio se aproxima' quer dizer, o que ele significa para João.

Enfim, não temos um clímax, mas a história toda nos dá impressão de que algo se passa, junto com as palavras, é interessante e o leitor só saberá como é isso lendo. Adorei e fiquei intrigada também com a forma como o autor nos trouxe a narrativa, ela é um pouco informal, por vezes ficamos com a impressão de que está em primeira pessoa, quando nos prendemos na história, mas não.

A diagramação também ficou boa, bem simples e organizada. Particularmente, acho que um livro já ganha bônus extras somente pela organização, o que este ganhou. A capa é condizente com a história, apesar de que gostar de coisas mais chamativas, mas ainda assim me agradou.

No mais, essa é uma história interessante e uma leitura boa! Realmente gostei, foi uma experiência diferente e garanto que quem der uma chance também gostará! Espero que tenham gostado, deixem suas impressões nos comentários que vamos conferir! Beijos e até a próxima!



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